quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Em cartaz, Cora Coração




Inaugurou na sexta-feira, dia 21 de agosto, a exposição Cora Coração com apresentação teatral que narra a biografia da poetisa goiana.
De modo lúdico e com profundo lirismo, Tiago Tiger e Rita Ferreira interpretaram vários personagens, com troca de figurinos em cena e contando com fundo musical nas maravilhosas vozes de Renata Bassan e Luciana Bassan.
Após o espetáculo, os presentes puderam conhecer e degustar uma autêntica quitanda goiana.
A exposição permanece em cartaz até 19 de setembro de 2009.
A biblioteca funciona de segunda a sexta das 8 às 19 h e aos sábados das 9 às 16 h.
Endereço: Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo, SP.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009





Parabéns, Aninha

Nasceu Ana
a menina goiana
que se rebelou
e mostrou
que é capaz.
É capaz de ser
de se mostrar
de se sustentar.

Mostrou os costumes,
os segredos caseiros,
os sentimentos de mulher
que sabe o que quer,
mas que é domada,
por nascimento e
por casamento.

Sai de casa cedo,
de modo nada corriqueiro para sua época.
Um escandâlo!
Muda de ares,
cria sua cria
em outros quintais.
Paulistas quintais.

Passados mais de quarenta anos,
a mulher Ana,
agora madura e emancipada
retorna às suas raízes.
À velha casa da ponte.


Faz doces delícias surgirem
dos enormes tachos de cobre
sobre a lenha do fogão.
A senhora faceira
se reveza entre
a caneta e a panela,
entre a escritora e a leitora.

Sua fama ultrapassa
os limites de Vila Boa.
Encanta a todos com
seu jeito simples
de contar os costumes
de sua gente e que
é o jeito do interior brasileiro.

O grande poeta se curva
à sua nova colega
e a senhora Cora
se faz conhecida
mundo a fora
do velho Goiás.

Recebe títulos, honrarias,
concede entrevistas...

Nasceu Ana,
a menina goiana.
Morreu Cora,
a senhora do mundo.
Vive para sempre
Cora Coralina.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Está chegando a hora!

Ufa! Correira nos preparativos finais. Por isso a minha ausência aqui no blog.
Ontem montamos a exposição.
Está linda!
Espero que Cora goste da homenagem.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Você sabe o que é uma quitanda?


Provavelmente, a maioria das pessoas responderiam a essa pergunta: "_ quitanda é um pequeno comércio onde se vende frutas, legumes e verduras."
Muito bem, a resposta está corretíssima, para a maioria dos cidadãos brasileiros.
Acontece que, a palavra quitanda deriva do dialeto africano, quimbundo, de Angola, e quer dizer: tabuleiro onde se expõe mercadorias para vender nas feiras.
No interior do Brasil, principalmente em Minas e Goiás, com as cozinheiras negras e suas sinhás, se desenvolveu o costume de chamar quitanda ao conjunto de iguarias de uma refeição ligeira, por exemplo, o café da manhã ou o lanche da tarde. Sabe, aqueles biscoitos, bolos, compotas, doces cristalizados, doces de leite, queijos, geléias que se costuma ter nas despensas das casas do interior? Então, isso é uma quitanda.
A minha avó, uma vilaboense assim como Cora, me contava que lá na fazenda de meu bizavô, ela e suas cunhadas se reuniam nas tardes das quintas-feiras para fazer os bolos, biscoitos e doces para serem consumidos durante a semana. Acho que deveria ser até divertido!
Na cidade de Goiás, as pessoas preservam esse hábito. Vários hotéis e restaurantes da cidade anunciam: servimos quitanda.
Daí, o turista paulistano pode estranhar "_eles vendem legumes!?"
_Não... no café da manhã, vamos nos deparar com todos esses quitutes além do tradicional bolinho de arroz.
O bolinho de arroz mereceria uma ode de Cora!
Não é aquele salgadinho frito, geralmente feito com as sobras do arroz não.
Trata-se de um delicioso e fofinho mini bolo, como um muffin, feito com a farinha de arroz.
Sua receita é guardada a 7 chaves e cada cozinheira tem seus segredos e variações.
É famoso o bolinho de arroz da D.Inês, na praça do mercado.
Humm... ai minha dieta!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Em 3 atos, Cora Coração

Decidi que seria necessário contar a vida de Cora Coralina na abertura da exposição. E falar de uma poeta sem falar a sua poesia ficaria estranho.
Então, chamei meu amigo ator, desenhista, figurinista, escritor Tiago Tiger para me ajudar nessa tarefa.
Ele chamou a atriz e produtora Rita Ferreira e nos reunimos para falar de Cora. Com a pesquisa de seus dados biográficos em mãos, lemos várias de suas poesias e trechos de contos numa tarde, bebericando cafezinhos, degustando biscoitos de mel e nos emocionando com as estórias de Cora.
Nas nossas reuniões semanais, com a colaboração das cantoras Luciana Bassan e Renata Bassan, fomos montando a mini peça teatral com texto de Tiago.
Agora, já não posso falar mais nada. Vou deixar para a noite da abertura da exposição.
Essa lindíssima foto tem a assinatura de Tiago Tiger.







domingo, 9 de agosto de 2009

Continuando a falar de Cora

Criativa, obsevadora, forte, amável, intensa, determinada, inteligente, sagaz, incansável, autêntica, são alguns dos adjetivos para tentar descrever essa mulher que escolheu o próprio nome, sim porque Cora Coralina deixou de ser apenas um pseudônimo literário e passou a representar a fama de uma franzina senhora do interior de Goiás, que escrevia poemas e contos e fazia doces.
Os turistas a procuravam para comprar doce de cajuzinho do cerrado, doce de figo, de laranja, de abóbora, de leite, de cidra, de limão, de amendoim e ouvir suas estórias. A maioria das frutas, Cora pegava no seu quintal, de terras férteis vizinhas ao Rio Vermelho. O cajuzinho, a molecada ia buscar pra ela nas matas das proximidades, afinal era garantido o pagamento em espécie.
E assim Cora contruiu sua obra: "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", " O Tesouro da Casa Velha", "Vintém de Cobre", "Meu Livro de Cordel", Villa Boa de Goyaz", "Estórias da Casa Velha da Ponte", além de vários poemas publicados como literatura infanto-juvenil, como "O Prato Azul Pombinho", "Poema do Milho", "A Moeda de Ouro que Um Pato Engoliu", entre outros.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Processo Criativo, Poemas

A Oração do Milho

(Introdução ao Poema do Milho)

Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.

Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e se me ajudares, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo
e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar foi dado aos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que
trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre,
alimento de rústicos e animais do jugo.

Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados de rosas e de espigas,
quando os hebreus iam em longas caravanas
buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,
quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
e Jesus abençoava os trigais maduros,
eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.

Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,
que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

Cora Coralina


Rio Vermelho

Longe do Rio Vermelho.
Fora da Serra Dourada.
Distante desta cidade,
não sou nada, minha gente.

Sem rebuço, falo sim.
Publico para quem quiser.
Arrogante digo a todos.
Sou Parnaíba pra cá.
E isto chega pra mim.

Rio Vermelho das janelas da casa velha da Ponte...
Rio que se afunda debaixo das pontes.
Que se reparte nas pedras.
Que se alarga nos remanso.
Esteira de lambaris.
Peixe cascudo nas locas.

Rio, vidraça do céu.
Das nuvens e das estrelas.
Tira retrato da Lua.

Da Lua quarto-crescente
que mora detrás do morro.
Lua que veste a cidade de branco
e tece rendado de marafunda
na sombra das cajazeiras.

Rio de águas velhas.
Roladas das enxurradas.
Crescidas das grandes chuvas.
Chovendo nas cabeceiras.
Rio do princípio do mundo.
Rio da contagem das eras.

Rio - mestre de Química.
Na retorta das corredeiras,
corrige canos, esgotos, bueiros,
das casas, das ruas, dos becos
da minha terra.

Rio, santo milagroso.
Padroeiro que guarda e zela
a saúde da minha gente,
da minha antiga cidade largada.
Rio de lavadeiras lavando roupa.
De meninos lavando o corpo.
De potes se enchendo d'água.
E quem já ficou doente da água do rio?
Quem já teve ferida braba, febre malina,
pereba, sarna ou coceira?

Rio, meu pobre Jó...
Cumprindo sua dura sina.
Raspando sua lazeira
nos cacos dos seus monturos.
Rio, Jó que alimpa,
pela graça de Deus, Virgem Santa Maria,
nas cheias de suas enchentes
que carregam seus monturos.

Ponte da Lapa da minha infância...
Da escola da Mestra Silvina,
do tempo em que eu era Aninha...

Ponte do Carmo, querida,
dos namorados de longe.
Por onde passava enterro,
dos anjinhos de Goiás,
que iam pro cemitério,
pintadinhos de carmim.
Caixãozinho descoberto.
E a música tocando atrás
a Valsa da Despedida.

Ponte nova do Mercado
- foi pinguela do Antonio Manuel,
banheiro da meninada.
Ponte do Padre Pio dos potes d'água.
Carioca de nós todos.
Pinguelona dos destemidos,
contando a estória de um sino.

Sino grande, imprensado,
nas locas da cachoeira.
Sino da Igreja da Lapa,
que rodou na grande enchente
tocando pro rio abaixo.
Até que parou imprensado
nas pedras da Pinguelona.

Gente que passa ali perto
conta estória do sino:
Inda toca à meia-noite
quando a cidade se aquieta,
e as águas ficam dormindo.

Tange, pedindo uma graça:
Que algum cristão caridoso,
o salve daquele poço,
o tire debaixo d'água.
Pois seu destino de sino
é no alto de uma torre
abençoando a cidade.
Dando aviso para o povo
- louvar a Deus poderoso.

Poço da Mandobeira...
Poço do Bispo...
Poço da Carioca...
Sombras de velhos banhistas dos velhos tempos.
Sabão do Reino no bolso.
Toalha passada no ombro.
Cigarro de palha no bico.
A vitamina do banho.
Banho da Carioca.
Águas vitaminadas...

Rio Vermelho - meu rio.
Rio que atravessei um dia
(Altas horas. Mortas horas.)
há cem anos...
Em busca do meu destino.

Da janela da casa velha
todo dia, de manhã,
tomo a benção do rio:
_"Rio Vermelho, meu avozinho,
dá sua bença pra mim..."

Cora Coralina

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O Processo Criativo, Poemas

Vida e obra de Cora Coralina se misturam, pois sua inspiração vinha de tudo o que cercava o seu cotidiano.
Escolhi 3 poemas para compor painéis da exposição. Olha, não foi uma decisão fácil.
Elegi o poema Todas As Vidas porque este fala das várias facetas que podem compor a essência feminina.
A sua homenagem ao milho é algo transcendente, por isso escolhi o poema Oração do Milho, que é uma introdução ao Poema do Milho.
E finalmente, o poema Rio Vermelho, pela importância que este teve em sua vida. Nasceu e foi criada ao lado do rio. Jovem adulta, o transpôs em busca de seu destino e retorna ao aconchego do murmúrio de suas águas nos anos finais de sua vida.


Todas As Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
_Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
Tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
na minha vida -
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobre Cora




Era 1911. A jovem mulher, cheia de sonhos, criativa, conhece o delegado recém nomeado para a cidade de Goiás, Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, num dos saraus que costumava frequentar e os dois apaixonam-se.
Acontece que esse senhor era separado da mulher e deixou ex-esposa e filhos na cidade de São Paulo. Lembrando que naquele tempo, não havia divórcio. Mesmo assim, a destemida Ana da ponte da Lapa, resolve fugir com Cantídio para a cidade de Jaboticabal, onde viveu alguns anos, depois passou por Andradina e finalmente chegou à capital paulista. Apesar de terem se conhecido num sarau, o advogado Cantídio não gostava que sua mulher escrevesse. Mesmo assim, Cora nunca deixou de escrever. Publicou contos em jornais locais, subiu em palanque pela UDN, partido de oposição a Getúlio Vargas. Quis fundar um partido feminino e chegou a escrever o manifesto deste. Muito ativa, além de se dedicar ao marido, à casa, aos 5 cinco filhos e mais uma de criação- filha de Cantídio com uma índia - Cora costurava, fazia doces para vender. Foi vendedora de livros, de porta em porta. Foi enfermeira na revolução de 32. Após ficar viúva, foi morar no interior de São Paulo. Teve pensão, lojas de materiais femininos, a casa da borboleta, a casa dos retalhos. Vendeu o que produzia na sua horta. Quando os filhos já estavam criados e os netos nascidos, resolve retomar a casa velha da ponte. Volta às suas raízes. É em Goiás, a sua cidade, onde afloram com força total os seus dons de escritora. No céu azul do cerrado tudo lhe inspira. As pessoas, os becos, as igrejas, a louça, as lendas, os costumes, o milharal, até sua muleta, anos mais tarde, lhe servirá de musa inspiradora. Aos 70 anos, Cora resolve aprender a datilografar. Mas tinha a mania de escrever sempre, em qualquer papel que tivesse à mão.
"Goiás, minha cidade...Eu sou aquela amorosa de tuas ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando, saindo uma das outras. Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa. Eu sou Aninha."
(trecho do poema Minha Cidade de Cora Coralina)