segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobre Cora




Era 1911. A jovem mulher, cheia de sonhos, criativa, conhece o delegado recém nomeado para a cidade de Goiás, Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, num dos saraus que costumava frequentar e os dois apaixonam-se.
Acontece que esse senhor era separado da mulher e deixou ex-esposa e filhos na cidade de São Paulo. Lembrando que naquele tempo, não havia divórcio. Mesmo assim, a destemida Ana da ponte da Lapa, resolve fugir com Cantídio para a cidade de Jaboticabal, onde viveu alguns anos, depois passou por Andradina e finalmente chegou à capital paulista. Apesar de terem se conhecido num sarau, o advogado Cantídio não gostava que sua mulher escrevesse. Mesmo assim, Cora nunca deixou de escrever. Publicou contos em jornais locais, subiu em palanque pela UDN, partido de oposição a Getúlio Vargas. Quis fundar um partido feminino e chegou a escrever o manifesto deste. Muito ativa, além de se dedicar ao marido, à casa, aos 5 cinco filhos e mais uma de criação- filha de Cantídio com uma índia - Cora costurava, fazia doces para vender. Foi vendedora de livros, de porta em porta. Foi enfermeira na revolução de 32. Após ficar viúva, foi morar no interior de São Paulo. Teve pensão, lojas de materiais femininos, a casa da borboleta, a casa dos retalhos. Vendeu o que produzia na sua horta. Quando os filhos já estavam criados e os netos nascidos, resolve retomar a casa velha da ponte. Volta às suas raízes. É em Goiás, a sua cidade, onde afloram com força total os seus dons de escritora. No céu azul do cerrado tudo lhe inspira. As pessoas, os becos, as igrejas, a louça, as lendas, os costumes, o milharal, até sua muleta, anos mais tarde, lhe servirá de musa inspiradora. Aos 70 anos, Cora resolve aprender a datilografar. Mas tinha a mania de escrever sempre, em qualquer papel que tivesse à mão.
"Goiás, minha cidade...Eu sou aquela amorosa de tuas ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando, saindo uma das outras. Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa. Eu sou Aninha."
(trecho do poema Minha Cidade de Cora Coralina)

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